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| Economia, ecologia e budismo |
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Neste DVD, com 2h 03min., o Lama Samten apresenta um diagnóstico da situação de desastre ecológico em que nos encontramos utilizando uma visão budista e nos apresenta caminhos para a superação desta situação. Por que haveria uma conexão entre economia, ecologia e budismo? Entre economia e ecologia se pode entender, mas como o budismo entra nisso? A questão que une esses temas - budismo e educação, budismo e sociedade -, é a noção que temos de mundo real. Todos nós, imersos nas nossas ocupações, nos nossos trabalhos, temos uma sensação de mundo real. Mesmo os cientistas, os estudiosos, os cientistas no ocidente, também trabalham com a noção de um mundo real. Essa noção de mundo real, na configuração atual, está passando por problemas. Quando nós pensamos nos aspectos de ecologia, sabemos que a questão da sobrevivência do próprio ser humano no planeta ou da vida como um todo no planeta é uma questão que tem sido debatida cada vez mais. Nós tivemos recentemente a concessão Prêmio Nobel para pessoas que estão conectadas a esta preocupação com a questão da sustentabilidade da vida e de nossa sociedade humana e também dos seres humanos em função das próprias atividades humanas. As atividades humanas hoje se tornam uma ameaça a esta sobrevivência do ser humano, da sociedade, talvez da vida no planeta. Então quando nós olhamos esta questão da sobrevivência e associamos esta questão à noção do mundo real vemos que a cultura atual tem dificuldades concretas em superar essas dificuldades ligadas à questão da sustentabilidade. Há dificuldades teóricas mesmo. Porque se consideramos que este tipo de sociedade representa a única forma em que podemos viver, e esta sociedade no seu todo está ameaçando ou pelo menos colocando a questão da sustentabilidade como uma questão crucial e ainda assim achamos que não há outra alternativa a não ser seguir o mundo real, nós estamos realmente em dificuldades, verdadeiramente estamos em dificuldades.
Eu lembro que certa vez, estudando as guerras entre os persas e os gregos, uma das coisas que me chamou a atenção é que nos tempos finais ainda havia um milhão de persas na Grécia. Na batalha final havia um milhão de persas e duzentos mil gregos. Antes da batalha os persas já sabiam que iam perder. No entanto tinham a seu favor uma proporção de cinco para um. Ainda que tivessem essa sensação que iam perder, como de fato perderam, ainda que houvesse essa sensação eles não conseguiram fazer coisa alguma a não ser partir para a batalha final para serem derrotados. Os persas tinham ainda cidades gregas que haviam sido dominadas e se aliaram ao exército persa. Uma coisa que me chamou muito a atenção foi como que uma tragédia anunciada não pode ser evitada. Agora nós também temos tragédias anunciadas, mas parece que o mundo real é tal que nós simplesmente seguimos fazendo o que temos que fazer e pronto, nós não temos alternativas. O budismo trabalha com a noção de que as realidades são todas construídas, portanto não são realidades finais, as realiades que nós vivemos são configurações não são coisas obrigatórias. Talvez estejamos vivendo o esgotamento de um modelo filosófico. Este modelo filosófico está ligado a características religiosas e a características científicas também. Por exemplo, quando nós estudamos a origem da ciência, vamos encontrar essa origem nos textos que foram traduzidos por Marcílio Ficino para o governante de Toscana no final do século XV. Esses textos eram atribuídos a Hermes de Trimegisto e essenciamente diziam: o universo foi construído através de leis. Essa visão de que há leis fundamentais subjacentes à construção do universo e que essas leis são, portanto, uma base para que surja uma realidade externa e determinística é que produz uma visão de realidade onde aquilo que se apresenta diante de nós é algo final, expressão de leis fixas, sólidas, que estão ocultas para a maior parte das pessoas. Na filosofia ocidental isso vem a ser conhecido como a posição da filosofia natural, onde vamos encontrar embutido um determinismo. Vamos encontrar a visão de uma causalidade estreita e estrita de tal modo que acreditamos que qualquer fenômeno se desenvolve independente de nós, determinado por fatores que também escapam ao nosso alcance, logo é perfeitamente plausível imaginar que a sociedade como nós a encontramos hoje, olhada sob o ponto de vista determinístico é algo inevitável. Não temos o que fazer, as coisas se apresentaram diante de nós geradas por causa e condições fixas e só teríamos alguma possibilidade de mudanças se introduzíssemos artificialidades, mas essencialmente o mundo em que vivemos é o que se apresenta a partir de leis naturais que regem a própria psicologia dos seres humanos, regem os impulsos dos seres humanos e o próprio ser humano não se coloca na questão. Nós somos o que somos e isso é o que nós somos. Enquanto isso, na perspectiva budista, a noção básica pertence a uma outra visão filosófica que modernamente SS o Dalai Lama coloca como o ceticismo saudável, expressão que às vezes usa. A noção de ceticismo saudável se coloca como uma compreensão de que na origem de todas as coisas, em vez de termos leis que determinam o que vai ocorrer depois através da causalidade, nós encontramos uma liberdade natural. Essa liberdade natural, se manifestando como uma liberdade, e também através do poder da luminosidade, que é o poder de construção das coisas, dá origem às configurações que nós vamos encontrando ao longo da experiência da existência, tanto dos seres humanos quanto dos seres em geral. Isso seria mais ou menos assim: não só não temos leis fixas, como não temos também o universo surgindo através de leis, e não só isso; o universo continua em construção pelo poder luminoso da mente, não só dos seres humanos, como a de todos os seres. O processo de constituição do universo não se encerrou, não é alguma coisa que foi feita e cessou, o processo continua em elaboração. Às vezes dou o exemplo de meninos que se reúnem em um final de tarde para jogar futebol; eles têm a liberdade de se reunir no campinho, têm a liberdade de dividir os dois times, e depois que começam a jogar pensam que aquele jogo é regido por leis universais e os que estão nos times, de um lado e de outro, é como se estivesse solidamente regidos por leis não se sabe de onde. Então nós temos essa noção sobre as leis que nós mesmos construímos, como nós construímos aquela realidade temos a sensação de que aquilo é fixo, rígido, externo a nós. E de fato, se um menino que estivesse jogando em um dos times, se ele pretender no meio do jogo trocar de lado ou chutar a bola na direção errada, isso vai ter consequências, com certeza. Essa sensação de que ele nada pode fazer a não ser o que está fazendo vem do que nós chamamos de paisagem, ou seja, compreensão do mundo. Nós temos uma compreensão do mundo que nos leva, que nos domina, que nos empurra a um tipo de comportamento que pode ser mais lúcido ou menos lúcido, mas esse comportamento parece que está baseado na compreensão de todas as coisas. No budismo nós estudamos como essas realidades menores terminam por se constituir como se fossem a expressão da realidade maior de todas as coisas ao nosso redor. Essa noção de realidades maiores que fecham os nossos olhos nos impedem também de compreender outras culturas ou mesmo compreender a vida de outras pessoas que nos rodeiam. Fechados em nossa forma de compreensão particular dentro do mundo que construímos para nós mesmos temos dificuldade de entender as outras pessoas agindo dentro dos seus mundos. Ainda que os antropólogos entendam que as culturas são todas diferentes eles têm dificuldade de olhar as diferentes culturas dentro de seus próprios referenciais. Terminam as olhando à sua própria forma.
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